12 de janeiro de 2012

Sobre os melhores amigos que podemos ter

No início desta semana, mencionei que escrever é uma coisa séria para mim, mas as palavras não estavam fluindo. Tivemos uma perda familiar e precisei de um tempo para devolver a cabeça ao lugar, recobrar a concentração e levantar a cabeça para seguir em frente, sem um pedacinho de mim.

Aprendi que o amor é algo único, universal e benigno. Mas são várias as formas de amar e de ser amado. Feliz daquele que pode dizer ter sido amado de todas as formas possíveis. Uma delas, em especial, constitui um Amor que é também Amizade, na forma mais pura, leal e sem interesse que pode existir. Existe uma espécie, no mundo, que é capaz de olhar para você como se ninguém mais pudesse fazê-lo tão feliz apenas por estar presente. Muitos são os nomes que damos a eles: pets, animais ou bichinhos de estimação, além de apelidos carinhosos. Sobre os cães, hoje tenho uma opinião formada. Não importa a quantidade de nomes que possam ter, porque todos se resumem a uma expressão: Amigos Verdadeiros.

Ben esteve neste mundo por 1 ano e 19 dias, mas faz parte da minha vida há 10 meses, 29 dias e ainda contando: na ausência física, sua presença se tornou ainda mais forte. Infelizmente para todos os que o conheceram, ele deixou este mundo no início da semana. Durante os últimos dias, eu me dediquei a pedir forças do céu, a receber o apoio dos meus amigos e refletir, refletir muito. Só vai compreender o que escrevo aqui quem sabe o que é ter aqueles olhos doces, fiéis e sinceros olhando para você. Não é algo que eu já tenha visto em outro ser humano, em 27 anos de olhos bem abertos.

Quando ele chegou, eu tinha certa resistência a cães e, apesar de achá-lo extremamente fofo, meu coração ainda era duro, por razões que eu nem lembro mais. Impossível lembrar de qualquer outra coisa que não a vontade de amá-lo, porque ele era, bem... Era o meu Ben! Quem o conheceu, sabe.

Nas primeiras noites, ele chorou muito - claro, recentemente separado do irmão - e improvisamos uma cama em uma caixa grande porque temos escadas. Recebi a dica fantástica de deixar com ele um tecido com o cheiro de alguém da casa, uma blusa antiga que fosse, de preferência de quem tivesse passado mais tempo perto dele, naquele dia. Ele não transformou isso em um hábito, mas virou hobby. Era muito divertido ver a festa que ele fazia por isso.

Ben foi arteiro desde novinho, mas muito carinhoso. Ele me ganhou na convivência, em cada momento que se mostrou companheiro, com aqueles olhos vivos, sapeca como só ele sabia ser e indisciplinado como um Marley da vida. Era apaixonado por pés e chinelos de borracha (juntos ou separados), biscoitos caninos de aveia e pessoas – ele adorava as visitas que chegavam aqui, por mais que nem todos os visitantes gostassem do jeito espalhafatoso dele. Fazer o quê, cada um demonstra carinho do seu jeito. Ele ainda adorava sentar entre os nossos pés, ou fazer deles um travesseiro – o que estivesse no humor para o momento. O importante era estar junto de nós.

Nos raros momentos do dia em que ficava sozinho, ele tinha a mania linda de ir ficar sentado ou deitado na varanda, a cabeça apoiada no batente, olhando a rua e as pessoas que transitavam ali; ocasionalmente, latia horrores para mulheres que passavam berrando com seus filhos, outros cachorros ou pessoas mais barulhentas que ele. E aquele pelo era uma coisa maravilhosa de se ver, quando ele começava a correr pela casa atrás da bola ou dos outros brinquedos: brilhoso, farto, mesmo depois da tosa, e capaz de crescer por toda parte, fazendo-o parecer uma verdadeira bolinha de pelos. Você não conseguia estar perto dele sem querer fazer um carinho naquela cabeça felpuda.

Ben nos recebia no topo da escada e a alegria não se restringia ao rabo girando como uma hélice de helicóptero - ele contorcia o corpo feito uma mola. As posições em que ele dormia eram igualmente impressionantes: se fosse eu, ficaria travada uma semana. Mas o mais marcante era a forma como ele deitava a cabeça no colo da gente, do nada, ou quando ia até onde estávamos, no sofá, na cama ou na rede e simplesmente deitava a cabeça de lado, para nos ver de frente.

O meu pai não está lidando com a situação muito melhor do que eu, uma vez que eles se adoravam de um jeito único. Mas tudo isso acabou aproximando a gente e me fez perceber que painho é durão, mas é mais sensível do que jamais pensei. Ele quer comprar um companheiro bebê, porque não acha que consegue atravessar essa fase sozinho. O amor e a amizade de Ben eram algo legítimo, ingênuo, sem maldade, e isso o marcou muito, marcou a todos nós. Mas eu o aconselhei que não devemos fazer isso agora.

Primeiro, Ben jamais será substituído e acredito que, tal qual aconteceria com a passagem de um parente, a memória deste momento deve ser vivida por completo. A gente tem que passar por isso e aprender a crescer. Vamos trazer um novo amigo em breve, mas um cachorro vive em média 14 anos. Temos que criar o irmãozinho de Ben sabendo que um dia, podemos passar por isso de novo; vamos amá-lo por sua lealdade e honestidade, e por todos os momentos felizes que ele também vai nos proporcionar, nunca porque ele estaria preenchendo um vazio. Nessa hora complicada para a família, por mais que haja diferenças e problemas, a gente precisa se apoiar uns nos outros. Não importa os defeitos de cada um, todos temos falhas, e cada um reage à dor de sua forma.

Toda a força que tenho recebido nestes dias conforta o meu coração e eu posso transmiti-la a papai. A falta do meu Bê, eu ainda sinto, e muito. Mas venho encarando melhor, um pouco por dia. Não posso voltar atrás e desfazer o que não tem mais jeito, tenho de conviver com isso e adquirir fortaleza e experiência. Mas se eu pudesse... [ Esse “Se” é o que mexe com a vida de todos nós]

Ben era muito carinhoso, dócil e se apegava facilmente. Arranhava a porta para entrar no quarto e cochilar sob a minha cama, enquanto eu estudava para os concursos. Eu ainda escuto as patinhas na porta, de manhã. Foram meses de uma aproximação que vai ficar sempre na memória. Eu sei que a dor vai passar, só está pior agora; é como perder um familiar. Mas considerando o quanto estive sozinha ultimamente e ele ser meu único companheiro naquelas horas, perdi mais que isso. Eu sei o que é sentir a perda de um ente querido, agora [quem já passou pelo mesmo, sabe]. Não é como o luto por um parente distante, que vemos uma vez no ano, no Natal, e nunca fala com a gente no ano; nesses casos, a gente fica triste por um dia, mas segue em frente. Mas afastar-nos de um amado da nossa convivência, que estava ali todo dia do seu lado, mesmo sem entender uma palavra sua, é bem diferente.

Naquela manhã, ele escutou o meu telefone tocar e correu para o meu quarto, mesmo escuro, como sempre fazia quando ouvia o toque. Eu estava deitada, ainda. Ele subiu na cama para me ver, eu não aguentei, precisei descer e dizer adeus, embora fosse a última coisa que eu quisesse fazer. 
Uma amiga me mandou palavras muito importantes, que queria dividir com vocês. Ela disse que o que a conforta é imaginar a paz em que eles (nossos pequenos amigos) se encontram, no reino onde não existe maldade, fome ou frio. No céu dos nossos amigos de quatro patas deve haver um imenso cobertor, construído de retalhos de nossos pensamentos e lembranças das boas histórias que vivenciamos, isso os aquece. Eles são uma fonte de amor verdadeiro, de amizade verdadeira, e vieram aqui pra ensinar isso, foi a missão deles. Anjos que retornaram ao céu, mas precisavam vir aqui deixar uma lição. (M. B., obrigada de novo).

Só entende o que é sentir o que sinto agora quem amou e foi amado por um amigo assim, não importa se ele é de raça ou não. O amor, a entrega, a fidelidade e o sentimento protetor em relação aos que ele ama são únicos. Ver aqueles olhos castanhos olhando para mim como se eu fosse uma criatura maravilhosa é inequecível, tanto quanto as corridas que ele travava com a bola, em casa. Ben devolveu luz à minha vida na minha pior fase, justamente quando eu pensava que não podia mais confiar em ninguém.

A mensagem que deixo a todos alguns já me ouviram dizer.
O amor não acaba com a morte. Ele se amplifica de tal forma que não fica mais restrito ao seu coração, ao seu sentimento. Ele se expande e abraça tudo ao redor, nas lembranças despertadas por fotos, aromas, cores e sons. Esta é uma daquelas fases da vida que a gente preferia não ter de encarar, mas é preciso saber ser forte em meio ao choro, levantar tirando a poeira do corpo e seguir em frente - mesmo que ainda haja pedras para nos fazer tropeçar. É uma possibilidade. "Aquilo que não nos mata, nos fortalece", disse Nietzsche.

Bom fim de semana a todos, cuidem bem dos seus amores, sejam eles quem forem, como diz a música. Especialmente, esses pequeninos cães de estimação. Algumas pessoas nunca vão nos amar da forma incondicional que o melhor amigo do homem sabe amar, e eles merecem ser lembrados sempre.

Fiquem com Deus e cuidem-se.



Para Ben Gomez, meu amor, meu amigo, lembrança viva, enquanto eu viver.
(dez/10 a jan/12)


4 Comentários:

Aione Simões disse...

Nossa, flor, me emocionei lendo o seu texto.
Eu entendo completamente como você se sente.
Tenho 2 cachorros e 7 gatos. Até novembro, eu tinha 8 gatos. Um deles, o mais novinho, minha mãe havia encontrado na porta de casa em maio, ele devia ter no máximo 3 meses. Era bebezinho ainda!
Em novembro ele morreu na porta de casa, também, ainda nem sabemos como. Ele escapou e talvez tenha sido atropelado, mas como não estava machucado, é difícil dizer. Foi por menos de 5 minutos, minha mãe saiu para buscá-lo, ele não estava lá. Quando foi lá fora de novo, já havia acontecido. Ele ainda estava com o corpinho quente.
A dor é horrível. Eu passei a semana inteira sem acreditar que tinha acontecido, via de relance meus outros gatos e achava que era ele, ai lembrava do que havia acontecido. Por mais que ele tenha passado poucos meses em casa (foram um pouco mais de 5), eu já o amava muito e sinto falta dele até hoje, mesmo tendo outros gatos.
Como você disse, o Ben nunca será substituído, assim como o Ozzy (meu gato), também não, da mesma forma que pessoas são insubstituíveis.
Viva sim esse momento e tenha a certeza de que o amor transcende barreiras do espaço e do tempo. Ainda que tenha durado pouco, agradeça por ter acontecido e por tê-lo tido em sua vida. Sei que não é fácil e desejo muita fé e força para você e seu pai, principalmente.
Minha cachorra tem 14 anos e sei que a hora dela está chegando, então já tento me preparar para esse momento que não será fácil.
Luz pra vocês!
Beijão!

Ricardo Guilherme dos Santos disse...

Puxa, This, sinto muito por sua perda.

Os cães são amigos tão incondicionais, como você disse, que realmente nos conquistam. Mesmo com sua fragilidade, eles realmente tentam nos proteger o tempo todo. E a amizade e o amor deles são puros e verdadeiros, o que é muito raro entre as pessoas. Como não amá-los, não é verdade?

Eu também acredito que o amor não acaba com a morte. A cachorrinha que é personagem do meu livro é uma homenagem a uma viralatinha que eu tive, que era uma amiga MUITO especial. Pode ser loucura minha, mas eu prefiro acreditar que ela ainda existe de alguma forma. Pelo menos no meu coração ela tem lugar cativo, como o Ben sempre terá no seu.

A dor vai diminuir, This. Com o tempo, ficarão apenas essas lembranças doces que você tem do Ben. Mas enquanto isso não acontece, o sofrimento é muito grande mesmo. Mas vai passar.

Lindo texto!

mariana disse...

Oh querida, muito triste!
Tenho dois "bimbos" peludos(gatos)aqui:Frum e Penélope!Sabe que as vezes paro e fico pensando como vai ser quando eles se forem!Acho que vai ser muito mais difícil pro meu marido!Ele não queria que eu os adotasse, porque ele teve uma história muito triste com um rotweiller, e não queria mais saber de animal de estimação!A Penélope eu adorei num pet shop, o Frum apareceu na minha garagem!Meu marido diz que ele "passou a perna" em mim, hehe, porque se ele estivesse nas ruas provavelmente tava morto, e aqui ele só come uma ração caríssima(tem um problema nos rins e se comer qualquer coisa já era!)!Ah, mas pode ter certeza, que a gente supera tudo, tudinho mesmo!Muita força pra você!!!

Bruna Camposs disse...

Sinceramente não sei o que dizer para você.
Eu tenho uma cachorrinha de quase 9 anos, para mim ela é tudo, minha filha, minha amiga, minha vida, sempre fui doida para ter um cachorrinho, sei que a amo muito ela transformou minha vida, quando estou triste ou doente ela não sai do meu lado por nada, amiga companheira fiel.
Eles não pedem nada em troca, a única coisa que eles querem é ser amados.
Odeio quem faz maldade com animais, são verdadeiros monstros.
Ano passado minha filhinha teve cãncer, teve que operar, eu sofri muito, chorei muito, mas graças a Deus ocorreu tudo bem com ela.

Um dia a dor vai diminuir, mas nunca se esqueça o que ele trouxe e mostrou-lhe, ele ensinou a você a amar, mostrou que você não era assim como você disse ter um coração duro. lhe ensinou que voc~e tem um coração bom que é capaz de amar da forma mais simples aquele que só lhe pede amor.

Beijoss

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